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Com queda dos juros, LCIs e LCAs ainda são boas opções na renda fixa? | LCI e LCA


Sobram menos dúvidas no mercado sobre a queda da taxa básica de juro (Selic), mas aumentam as questões na renda fixa. Mesmo títulos cativos na carteira do investidor podem começar a parecer menos atraentes com as taxas em queda. E até as letras de crédito agrícolas (LCAs) e imobiliárias (LCIs), entre as indiscutíveis “queridinhas” nos papéis de renda fixa, passaram a ser contestadas: conseguiriam continuar batendo outros ativos em termos de rentabilidade líquida?

Assim, o investidor começou a despertar para uma realidade que não é tão óbvia quanto podia parecer antes: essa resposta depende do prazo de vencimento do título – e de quanta fé o investidor tem na concretização do cenário do mercado para juros futuros.

O especialista em investimentos e sócio fundador da assessoria Casa do Investidor, Michael Viriato, explica que, de maneira geral, as letras de crédito conseguem manter sua vantagem sobre outros títulos se seu vencimento for dentro de um ano. “Depois desse prazo, as LCIs e LCAs ainda são competitivas, mas nem sempre são a melhor opção em termos de rentabilidade”, disse.

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Victor Beyruti, economista da Guide Investimentos, segue a linha de raciocínio de Viriato. Para ele, ainda que, como um todo, os rendimentos dos papéis de renda fixa inclinem-se à queda – junto com a Selic -, as letras de crédito tendem a ser menos rentáveis no longo prazo, especialmente as prefixadas.

As LCAs e LCIs não deixarão de ser bons investimentos, mas devem perder o seu status de ‘favoritas’ com as mudanças recentes no cenário”, afirmou.

A lógica dos especialistas está ancorada em dois fatores:

  • a vantagem das letras de crédito de serem isentas de Imposto de Renda (IR) é eliminada em prazos maiores;
  • esses títulos costumam ter taxas de indexação ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI), mais baixas que outros papéis da renda fixa privada.

Isso quer dizer que a isenção tributária, que garante às LCIs e LCAs um espaço cativo no coração de investidores, não assegura a margem sobre outros ativos para sempre. Como a tabela do IR é regressiva na renda fixa, os ativos que, diferentemente das letras de crédito, não são isentos, podem fechar essa lacuna de rentabilidade com taxas mais altas em prazos mais longos.

Efeito da isenção de IR sobre a rentabilidade de letra de crédito

Ativo** Taxa Prazo Rentabilidade equivalente bruta*
LC(I/A) pós-fixada 97% do CDI Até 180 dias corridos 125% do CDI
LC(I/A) pós-fixada 97% do CDI de 181 a 360 dias corridos 121% do CDI
LC(I/A) pós-fixada 97% do CDI de 361 a 720 dias corridos 117% do CDI
LC(I/A) pós-fixada 97% do CDI acima de 720 dias corridos 114% do CDI

*Projeção de rentabilidade equivalente bruta, isto é, as taxas que o papel teria para entregar a mesma rentabilidade caso não fosse isento de tributação.
**Letra de crédito (imobiliário ou agrícola) hipotética usada como exemplo nesse exercício e com taxa relativamente elevada para a classe.

“Entre um e dois anos, quando a alíquota do IR na renda fixa cai para 17,5%, um ativo que não é isento de tributação sobre renda com retorno de 117% do CDI entregaria uma rentabilidade líquida equivalente a essa letra de crédito com 97% do CDI, o que não é lá grandes vantagens, porque já existem Certificados de Depósito Bancário [CDBs] com essa taxa”, elucidou Viriato.

“A questão mais interessante é do momento que esse prazo de vencimento do título passa de dois anos (acima de 720 dias corridos). Aí a alíquota de IR é de 15%, e a rentabilidade equivalente bruta desse título (114% do CDI), já perde para CDBs com o mesmo prazo, com retornos que giram em 120% do CDI.”

A letra de crédito do exercício de comparação, emitida a 97% do CDI, tem uma taxa em um patamar elevado se comparada a papéis da mesma classe no mercado. O Banco do Brasil emitiu uma letra de crédito agrícola nesses conformes, ainda em setembro, mas com prazo de seis meses.

Para um título com vencimento em seis meses (180 dias corridos) contados a partir de hoje, o CDI descerá dos atuais 12,15% a 11,05% (a taxa média costuma correr em torno de 0,10 ponto percentual abaixo da Selic). Isso, caso se concretize o horizonte desenhado no comunicado da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) e reiterado por dirigentes do Banco Central (BC), que prevê a redução da Selic de forma cadenciada de meio ponto por reunião.

Onde mora a (des)vantagem

A maioria das letras de crédito é pós-fixada e indexada ao CDI. Como gozam de isenção tributária, LCIs e LCAs costumam oferecer taxas de retorno mais baixas em comparação com outros papéis de renda fixa privada, especialmente contra outros CDBs. Assim, são mais baratas para o emissor (que paga juros menores sobre sua dívida) ao passo que mantêm atratividade para o investidor.

Nas plataformas XP e NuInvest, as taxas das letras de crédito pós-fixadas e indexadas ao CDI que estavam disponíveis no dia 25 de setembro variavam de 81%, para uma LCA emitida pelo Novo Banco Continental com vencimento em 25 de dezembro de 2023, a 100% do CDI em um título emitido pelo banco John Deere com prazo de 18 de setembro de 2028.

Entre as LCAs prefixadas nas duas plataformas, as taxas variavam de 7,7% ao ano no papel emitido pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) com vencimento em 25 de setembro de 2025 até 10,34% ao ano na letra de crédito agrícola do banco Bocom BBM com prazo até 26 de março de 2024.

as taxas das LCIs prefixadas negociadas na mesma data variavam de 8,99% ao ano, na letra de crédito imobiliário do Novo Banco Continental com vencimento em 25 de setembro de 2024, a 11,42% ao ano para o título emitido pelo banco ABC do Brasil com vencimento em 18 de novembro de 2024.

Cabe lembrar que a variação nas taxas também está condicionada à nota de risco de crédito das instituições emissoras. Aquelas que oferecem maior risco de calote tendem a rentabilizar melhor seus títulos de dívida (high yield), enquanto bons pagadores (high grade) emitem papéis a taxas em linha com média das negociadas no mercado – por vezes até menores.

Na data, as plataformas pesquisadas pela reportagem ofereciam CDBs pós-fixados com retornos entre 99% e 130% do CDI, conforme o grau risco do emissor e o prazo de vencimento do ativo. Apenas um CDB prefixado aparecia nas corretoras: um emitido pelo banco Original a 11,65% ao ano e com vencimento em 26 de agosto de 2024 – portanto com alíquota de IR de 20%.

Em agosto, a rentabilidade média dos CDBs para 12 meses estava em 101,95% do CDI, de acordo com levantamento da plataforma Quantum. A taxa média dos papéis com vencimento em 24 meses estava em 101% do CDI e, a partir de 36 meses, era de 102,13% do CDI.

Os CDBs costumam bater LCIs e LCAs com frequência na preferência de investidores nas carteiras de renda fixa, segundo os levantamentos mensais do Yubb. Mas os certificados de depósitos bancários são também mais numerosos no mercado do que as letras de crédito agrícola e imobiliária.

Em 2023, até agosto as emissões de CDBs captaram R$ 7,5 bilhões, contra R$ 265,6 milhões captados por emissões de LCAs e R$ 172,4 milhões, pelas LCIs, de acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

A tendência, segundo José Milton Barbosa, economista e sócio da Blue3 Investimentos, é que a oferta de pós-fixados nesses títulos aumente, junto com as taxas, acompanhando a queda da Selic.

“Essa tendência de bancos pós-fixarem sua dívida indexados ao CDI acontece porque eles sabem que a taxa básica de juros vai cair”, afirmou. “Nesse contexto, até pode aparecer uma LCI ou uma LCA a 110% do CDI. Não seria um mau negócio – pelo contrário -, mas acho que há possibilidade de encontrar títulos com rentabilidade melhor, possivelmente em um prefixado com prazo mais longo, estratégias mais comuns entre CRAs, CRIs, CDBs e debêntures.”

Prefixar ou pós-fixar, eis a questão

Viriato explica que a decisão de entrar em letras de crédito (ou outro papel de renda fixa) prefixadas ou pós-fixadas depende da visão do investidor para o mercado, especialmente como esse cenário atinge a política de juros. “Nesta fase de início do ciclo de cortes da Selic, o mercado já embutiu nos preços de ativos as quedas de meio ponto até o fim da curva – em 2024 – que é o que a maioria projeta”, afirmou.

Isso só muda se o investidor tem uma visão para a queda dos juros que diverge da hegemônica, que já está refletida na curva. Caso a projeção do mercado para a queda da Selic pareça otimista demais, quer dizer, se o investidor acredita que a taxa vai parar de descer antes do que o mercado vê como o fim do ciclo [em 7 de novembro, o mercado enxergava a Selic indo até 10,50% e estacionando nesse patamar], o ideal é ficar com o pós-fixado.

Agora, se o investidor crê no aprofundamento dos cortes na Selic, em 0,75 ponto ou 1 ponto, ou numa taxa final abaixo da que o mercado projeta, o ideal é prefixar. É nisso que Barbosa acredita, por isso ele já tem sua posição: é hora de aumentar a posição em prefixados.

“Trata-se de uma conta para balancear prazo e taxa. Em um prefixado de longo prazo, você está assumindo um ‘risco’ maior, o de acreditar na estabilidade econômica por um período maior. É uma posição mais arrojada na renda fixa”, afirmou.

Justamente pelo risco elevado, o sócio da Blue3 Investimentos reitera que “não se coloca todos os ovos numa cesta.”

Para Beyruti, nesse ambiente de queda dos juros, “as LCIs e LCAs prefixadas, embora sigam atraentes, perdem a vantagem contra outros tipos de papel de renda fixa que carregam taxas mais altas e vencimentos muito longos.”

Viriato já acha difícil que o pequeno investidor tope o risco do prefixado de longo prazo: “o que os clientes gostam mesmo é do CDI, e os bancos oferecem o que os seus clientes querem”. Ele lembra que esses títulos tendem a superar o pós-fixado indexado ao CDI só daqui três anos, quando o mercado vê a Selic indo a 8%. E esta é uma hipótese que só o tempo confirmará.

 — Foto: Freepik
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